
Tenho a cabeça pesada,
uma vontade de nada,
uma esfera que roda sem destino,
empurrada por um vento forte sem que lhe resista.
Dores de parto, gestação de medos,
um não estar onde estou,
uma ausência de alma onde o corpo poisa,
não estou cá dentro.
Vagueio nas horas sem que elas me fujam,
ansiedade crescente, felina,
uma explosão permanente,
uma lava que escorre sem contenção...
Estou em fusão.
Arranco a vida dos caminhos diante de meus pés,
diluo os trilhos traçados, as vozes que se erguem,
apago os vestígios que não quero dissipar.
Sim, arranco-os a ferros sem querer perde-los.
Preciso forçar a paz,
submeter a tranquilidade às minhas mãos,
sem que se disfarcem as marcas
desse corpo que sonho,
dessa boca que me faz febril,
dessa voz que oiço sobreposta a todos os sons.
Declamo a minha loucura, sobriamente.
Nada é mais loucura que aquela que é consciente,
em que me tomo pela mão e me entrego
às cadeias invisíveis do amor,
sem que seja um horizonte para mim.
Mas estou preparada, treinada,
apta para amar silenciosamente,
sem respirar
para que os ventos não levem nem dissipem meus perfumes,
para que ninguém saiba...
o quanto o meu amor cresceu na penumbra da tua existência,
debaixo dos teus pés,
desejando-te secretamente a felicidade que não ousei alcançar.
Apenas as palavras me aliviam,
regadas por lágrimas em terras férteis,
de onde se erguem todas as impossibilidades
vencidas por um momento
que o amor fertilizou para sempre.
Quem ama destila néctar de saudades,
rompe oceanos com a voz,
rasga céus com asas de sonho,
alcança, mesmo que tenha de vestir humildade,
vence o orgulho e esquece a vida,
porque nem sempre há um amanhã,
e a vida foge sem que o sorriso conheça a madrugada orvalhada
de um beijo longo e orgásmico
que vence todas as dores,
apagando-as sem rasto.
Apenas um beijo
um toque leve de lábios ardendo de amor e paixão,
converte dois corpos amantes
num enlace frutífero de sabores intensos
capazes de se fundirem num só.
Aí sim, voltarei a mim.









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