
Noutro tempo era fácil.
Tão fácil desacreditar de sonhos porque eram apenas sonhos...
Era tão certo o amor nunca chegar.
Era tão simples fugir de mãos e de lábios, na inocência que abrilhantava a vida.
Não havia esperas nem desilusões.
Haviam suspiros apenas, dobrados em recordações principescas sem mácula.
Nada descia à dimensão do instante toque, da fragrância na pele, do olhar flamejante.
Até um dia!
Uma doce ilusão rasgou o véu e entronizou-se na alma.
Absorveu o espaço e o tempo visível e invisível.
Cresceu.
Preencheu tudo numa invasão de flores e frutos, de versos e beijos, de aromas e paladares...
Sugou o tempo de outrora, acordou as pálpebras dormentes, e desenhou arrepios vulcânicos que arrebataram todos os sentidos de uma só vez.
Sem querer, sem saber, sem ter tempo de pensar ou retroceder, tornou-se imperativo acreditar!
Acreditar na descida de um sonho poema que agora tinha mãos e rosto, voz e fôlego, magia em toda a sua chegada...
Foi árduo o percurso da consciência.
Sim era possível o amor chegar!
Chegou sem pré aviso, sem sinais de fumo nem tapetes de carmesim.
Apenas chegou montado em letras ardentes, em apelos de sol e labaredas de magia que me transpunham para uma nova dimensão.
Levitacional encanto que me depôs de todas as minhas defesas.
Larguei a espada e o escudo, despi a armadura de um mundo singelo, para emigrar em braços que prometeram a eternidade.
A dor cresceu.
Entre o sonho e o real cresceram anseios e falésias que nunca romperam o véu extenso dessa ilusão.
Ainda hoje ela é doce e amarga.
Ainda cresce, viciadamente, não obstante os rasgos desferidos.
Ela é semente, é paixão dormente, é anestésico de todos os infortúnios da vida.
Mas ela mesma é o maior de todos os amargos poemas.
Uma doce ilusão amargurada pelos dias,
que se atreve a sobreviver
como quem renasce a cada instante
de um depósito de cinzas
tornando-o em cristal límpido e resistente,
tão forte quanto o amor tornou possível.









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