
Traçadas estão as linhas das minhas fontes quentes e abundantes.
Desconheces os termos dos meus valados onde escorrem sonhos.
Onde as brechas de terra seca se embebedam de um fel adocicado.
E eu, imóvel, deixo-as ir, despedindo-as, as gotas do meu pranto.
Nunca outrora nem jamais num futuro inacabado morrerás em mim.
Colhi-te no meu olhar insano e sedento de palavras e gestos de amor.
De repente me assolou a vertigem da tua dor e desejei ser teu alento eterno.
Eu te olhei no primeiro instante e o mundo continuou igual, menos eu.
Reconheci a alma que sonhara vezes sem conta e julgava irreal.
Meu coração dilatou, meus fluidos conquistaram meu corpo loucamente.
Esqueci de quem sou para ser quem sente outro alguém dentro de si.
Eras tu. Chegavas com teus mantos de poesia e me embrulhavas.
Perante os olhares tímidos do mar e entre brisas me aquecias por magia.
Caíam estrelas e meus desejos choviam em meus braços sedentos dos teus.
As horas cravaram em mim a urgência de te ver, ter, amar.
Movi o mundo e enfim tu, afinal, te tornaste real em meus lábios, secretamente.
Sem conseguir te olhar me ofuscavas com o amor que emanava de nós dois.
Fomos a perfeita emoção sem toque, a explosão invisível em que o sonho tocou a realidade.
Eu perdi a minha origem, esqueci quem sou para me tornar quem queria ser. Tua.
Numa leve folha do tempo tudo se escreveu, uma história que o mundo não conheceu.
Um dia será lida pelas gerações, deixará de ser segredo, ilusão ou impossibilidade.
Mas hoje ainda se escrevem cravos nas mãos que estremecem procurando as tuas.
Hoje a lua se escondeu porque não me podia escutar, despediria para sempre o seu brilho.
Caem meus lábios ressequidos entreabertos revivendo cada beijo suavemente depositado pelos teus.
Oh como é doce algodão teu carinho e emoção, teu olhar terno e calado dizendo tudo.
Oiço-te e falo-te todos os dias na esperança de leres apenas meus desejos e nunca meus anseios.
Acordo e olho para o lado de olhos fechados conseguindo alcançar teu corpo aquecido no meu.
Estarei louca e obcecada, desvairada ou simplesmente amando e um modo perfeito e puro?
Se fosse louca te absorveria num egoísmo desmedido e repudiante, na perseguição doentia.
Se fosse obcecada te tiraria até o ar que respiras, a água que bebes, a voz com que não me presenteias.
Se desvairada não te esperaria no infinito de cada dia, nos termos das minhas saudades, na paciência de querer-te sem hesitação.
Amo-te no gerúndio, amando-te, partilhando meu sono e meu acordar, meus desabafos e as coisas mais simples do dia.
Amo-te quando me sento à mesa e imagino a tua doce presença.
Amo-te quando respeito teus silêncios que ardem dentro de mim, certa de que são a cura dos teus medos.
Amo-te quando me dói seres tão amado por quem não amas, mesmo que lhes declares paixão.
Amo-te por sentir o peso de tuas lágrimas, quase adivinhando quando estás a chorar, como há dias aconteceu e eu senti, ouvi-te mas me calei.
Amo-te além do que eu pensaria ser possível algum dia acontecer, além do que eu pensava existir.
Amo-te tanto que não quero morrer, agarrada à esperança de um dia regressar ao teu corpo, tua pele, teu beijo, teu sexo.
Porque afinal, em tua alma eu já estou e tu na minha.
Podemos correr o mundo e as constelações, acorrentarmo-nos a um engano ou ilusão, mas jamais poderemos anular este nosso amor eterno.
Sereia









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