Encosto meu rosto na vidraça embaciada
e olho, lá fora, a brisa que tudo empurra e traz.
Meus pensamentos me assaltam, armados,
roubando meu silêncio, minha melancolia...
Abro as páginas do livro que não queria
e os dedos se adiantam às palavras,
chamam-nas inquietos e esfomeados
mas elas ainda estão prisioneiras.
Tentam quebrar as barreiras
que as distam dos sentimentos
mas eles se perderam nos momentos
e tardam em regressar ao caminho.
Ali, depois de mim, depois do vidro incolor,
escorrem as gotas alinhadas até ao chão.
Algumas param e me olham fixamente
como se lessem o que o coração sente
e quisessem deslizar em meu rosto quente.
Eu apenas as observo desejando-as,
querendo provar seu doce sabor
porque as minhas gotas são de sal,
são pesadas e não escorrem...caem!
Molham-me sem piedade
deixando marcas
riscando caminhos sem brilho.
Chuva serena que me beijas o olhar
molha-me em tua doçura!
Lava a minha loucura
e adoça-me delicadamente.
Dilui as cadeias das palavras
para que elas fluam dentro de mim,
para que escorram até aos meus dedos
e se entreguem a eles sem medos...
Molha-me de desejos,
restaura os meus beijos
e faz deles um poema doce e encantado
saciando a sede da paixão
que se apagou no meu coração...
Sereia









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